O que é o Modelo de Jogo ?

O que é o Modelo de Jogo na sua visão ?

Essa é uma noção central para quem quer perceber o que é a Periodização Táctica. Aliás por norma há uma associação quase directa, por parte da generalidade das pessoas, entre a Periodização Táctica e a designação Modelo de Jogo. Contudo, penso não haver na generalidade das vezes uma correcta apreensão daquilo que representa e é o Modelo de Jogo para a Periodização Táctica.

Penso mesmo que há uma banalização e consequente deturpar do conceito. Confunde-se muitas vezes Modelo de Jogo com a concepção de jogo, a organização estrutural da equipa, com o dito sistema de jogo e com outros aspectos. O principal motivo para tais equívocos resulta das pessoas, e também as instituições, estarem ainda muito presas ao convencionalismo científico. Mark Twain dizia que “para aqueles que têm apenas um martelo como ferramenta todos os problemas são pregos”, e é precisamente esse o problema que se coloca a quem quer seguir o caminho da Periodização Táctica, ou seja o caminho da complexidade. Por isso mesmo tomando-se tal decisão, tem de se ter consciência que se a nossa ferramenta é a complexidade então todos os problemas são complexos e requerem tratamento complexo. Portanto, quando nos referimos à noção de Modelo de Jogo cortamos com a ideia tradicional que resulta da modelação matemática, linear. Referimo-nos antes a uma concepção bem mais complexa e dinâmica da ideia de Modelo, o que implica a necessidade de conceber e tentar perceber a complexa noção de Modelo de Jogo de acordo com a ideia de Metamodelação ou Modelação Sistémica.

O Modelo é constituído por um conjunto de inúmeros aspectos, alguns mais relacionados com opções do treinador, como a concepção de jogo, a metodologia de treino, a operacionalização do processo, outros mais relacionados com os jogadores e com a própria realidade do clube e o contexto envolvente. Aspectos que vão desde as crenças de jogadores ou dirigentes, à história do clube, dimensão estatuto e competência do departamento médico, a realidade competitiva, até as picardias e rivalidades históricas que possam existir dentro e fora do clube. Pode dizer-se que o Modelo é tudo. E por isso mesmo penso que a imagem mais capaz de o retratar é a de um iceberg, à superfície, isto é a face visível, parece ser uma realidade circunscrita a uma determinada dimensão e complexidade, mas na verdade é bem mais complexa e edificada sobre muitos aspectos que não são visíveis à superfície, mas que se assumem como fundamentais para a dimensão visível do Modelo. O Modelo é tudo e resulta da interacção altamente dinâmica entre os aspectos visíveis e dizíveis com os aspectos invisíveis e indizíveis que o compõem.
A melhor definição que conheço de Modelo é a do Professor Vítor Frade quando afirma que “o Modelo é qualquer coisa que não existe, mas que todavia se pretende encontrar”. Trata-se portanto de uma espécie de impossível necessário, que nós em termos ideais concebemos, mas que depois na sua concretização não conseguimos reproduzir tal e qual, pois ao nível do pormenor ele vai assumir contornos únicos resultantes da interacção com o que o envolve. No entanto, não deixa, ou não deve deixar de ter a configuração geral, os traços gerais daquilo que projectamos à partida. Temos de estar conscientes que por se tratar de uma realidade aberta dele vão emergir dimensões em termos de pormenor que nós à priori desconhecíamos. Muitas vezes quando se fala em Periodização Táctica refere-se a seguinte citação, “o caminho faz-se caminhando” e o Modelo é isso, faz-se modelando. O Modelo é o acto de Modelação, é o processo, e resulta do entrecruzamento dinâmico e complexo de uma intencionalidade estabelecida à priori com a sua operacionalização num determinado contexto, o qual, conjuntamente com a gestão que dele vamos fazendo vai permitir o emergir de uma realidade única, o nosso iceberg, o nosso Modelo de Jogo.

É uma noção complexa e não facilmente entendível, porque causa em nós vários conflitos. Desde logo, sendo tudo, uma realidade aberta, simultaneamente redundante – porque nos seus contornos gerais deve ser padronizável – e imprevisível – em termos de detalhe, coloca o treinador perante o aparente paradoxo que é o de ter de gerir uma realidade que na sua essência é imprevisível. Para que seja capaz de o fazer tem de aceitar que o seu controlo do processo nunca vai ser pleno, mas que quanto melhor for, melhor será o processo. Para lidar com tal conflito importa perceber bem o que se entende por caos determinístico, porque o Modelo de Jogo é isso mesmo. 

É uma realidade dinâmica e complexa que assumindo contornos globais desejáveis e estabelecidos à priori, concretizados pela modelação do processo, não deixa de contemplar em menor escala uma dimensão imprevisível. O Modelo é sem dúvida permeável ao que o envolve, no entanto, ele é tanto mais selectivo nessa permeabilidade quanto mais consistente e coerente for a complexa e dinâmica operacionalização do processo. E o que dota de consistência e coerência o processo é o modo como o treinador gere os aspectos mais controláveis, que podemos designar de plano cientificavel do processo. Um plano que é composto por uma matriz conceptual, relativa à concepção de jogo que é padronizável nos níveis de organização superiores, e por uma matriz metodológica, que se reporta aos Princípios Metodológicos. Depois há o outro plano, que é uma consequência da essência aberta do processo, é o plano do detalhe, do inopinado, que não é cientificavel, pois como diz o Professor Vítor Frade “para o detalhe não há equação”. É um plano que sendo imprevisível, contempla uma propensão para se constituir como um imprevisível mais previsível. Isto porque surge sobredeterminado, ou seja como uma emergência contextualizada pelo plano cientificavel do processo, daí caos determinístico.

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