A natureza defensiva do futebol

Se existe função mal compreendida e marginalizada no futebol esta função é defender. O senso comum atribui ao ato de defender uma feição torpe, bruta e simples, como se defender fosse um mero pormenor do jogo. Quando na verdade é tudo, menos isso.

A primeira tarefa de qualquer equipa é ter a bola, para tanto é primordial que haja um trabalho de organização defensiva rigoroso, devidamente ordenado e fundamentalmente que ocupe de maneira adequada todos os espaços do campo. Ocupar todos os espaços de maneira adequada é buscar inviabilizar a atividade ofensiva do rival.

Essa ocupação do campo para buscar a bola não se dá de qualquer maneira, existem dois métodos de ocupação de espaço, porém antes de se falar neles há uma observação fundamental e que precisa ser feita.

A natureza do futebol é defensiva, a maneira com a qual se joga com a bola nos pés é consequência direta da maneira com a qual a bola foi tomada. Quando a bola é tomada se dá começo a transição da defesa para o ataque, que via de regra é um processo que gera uma desordem defensiva de intensidade circunstancial ( ora grave, ora com um dano menor ) em quem perdeu a bola.

E métodos para se tomar a bola, aplicados de maneira sistemática com os quais uma equipa se associa e assim define seu jogo são dois.

Sendo o primeiro método ( não por importância ) um que leva consigo a ideia de deixar que o outro tenha a bola, buscando chamar o adversário pra dentro do seu próprio campo defensivo, recuando suas próprias linhas defensivas e preenchendo os espaços de tal modo que quem ataque tenha uma posse de bola estéril.

A intenção é reduzir as possibilidades do outro conseguir articular seu jogo ofensivo enquanto tem a bola. Tendo sido induzido a subir sua linha de ataque e adentrar o campo defensivo do rival, quando esta equipa que ataca perder a bola, estará exposta defensivamente.

Consequentemente, o jogo ofensivo de quem propõe se defender desta maneira será de poucos e rápidos toques na bola, a ideia é justamente fazer um uso da bola que guarde uma relação direta com a marcação do seu golo.

Jogando assim, há um processo de espera e indução ao erro em relação aquele que esta com a bola. Não a qualquer erro, um erro que será provocado para acontecer quando quem ataca estiver em situação de vulnerabilidade defensiva. Que se repare, aqui não há pressa de nenhum tipo para começar a manobra de ataque, o ataque começa quando a oportunidade surgir.

O contra ataque acaba sendo um resposta sem possibilidades de reação rápida para quem perdeu a bola. Se usa o contra ataque por isso, mesmo tendo muito espaço para se jogar a intenção é fazer o espaço enorme concedido pelo adversário uma rota direta para a marcação do golo. Não há contemplação de espaço ofensivo e sim fruição plena e efetiva deste.

Exemplos históricos dessa maneira de jogar podemos encontrar na Argentina campeã mundial de 1986 e vice campeã em 1990, dirigida por Carlos Salvador Bilardo, no Milan de Fabio Capello do começo dos anos 90, no Boca Juniors dirigido por Carlos Bianchi no fim da década de 90 e começo dos anos 2000. Mais recentemente os trabalhos de Antônio Conte na Juventus e José Mourinho seja no Porto, na Inter de Milão, Real Madrid ou Chelsea são exemplos que expõem de uma maneira bastante clara esta forma de jogar.

A outra maneira de se defender consiste em ser o agente provocador do erro alheio. A marcação aqui não espera, é adiantada, se joga e se pressiona para ter a bola dentro do campo do adversário. Quando se tem a bola pode sim se deparar com situações nas quais sua marcação sob pressão termine gerando situações em que o golo fique disponível a poucos movimentos, mas esta não é a regra.

Já nesse caso se defende para ter a bola. A bola aqui é necessária para defender e atacar. Seja na busca pela manutenção da posse impedindo o adversário de jogar, logo, ao passo que ter a bola é um episódio natural de ataque do jogo, se trata igualmente de uma manobra defensiva. Ao contrário do outro método, aqui há uma necessidade de bola.

Ao perder a bola, a pressão é novamente posta em prática e organicamente, dado o posicionamento defensivo da equipa de maneira adiantada justamente para manter essa relação de posse com a bola.

 
Os exemplos históricos desta forma de se entender jogo se encontram na Holanda de Rinus Michels nos anos 70 e fim dos 80. No Milan de Arrigo Sacchi no final dos anos 80, no Ajax de Louis Van Gaal do meio da década de 90. Fundamentais para quem quiser perceber esta maneira de jogar estão também a Argentina o Atlético de Bilbao e o Marselha, todos de Marcelo Bielsa. Atualmente, o maior expoente de dessa maneira de atuar é o Bayern de Munique de Josep Guardiola.

Expostas essas duas formas de defender, que definem e moldam a compreensão do futebol é necessário apontar que não são sistemas que operam dentro de um rigor matemático. Tampouco determinam que alguém que escolha adiantar sua marcação não vá passar por momentos de trabalho defensivo mais retraído. Igualmente, aquele que espera terá sim momentos nos quais estará obrigado a subir sua marcação e ter um trabalho ofensivo com mais tempo de bola nos pés.

Se tratam de duas matrizes de compreensão e aplicação do futebol, são pontos de partida.

Dito isso me parece  importante reafirmar as seguintes conclusões, sem as quais é difícil entender o jogo.

A primeira é perceber que para um jogo defensivo eficaz, os espaços do campo devem ser bem ocupados. Uma boa ocupação consiste em conseguir se defender de modo que o rival tenha dificuldades para conseguir desenvolver seu jogo de ataque e finalmente perca ou tenha roubada a bola.

A segunda e mais importante conclusão é que o futebol é um jogo de natureza defensiva, insisto. A maneira com a qual se defende condiciona a maneira com a qual se ataca. Nunca o contrário. O movimento ofensivo é filho do movimento defensivo, defender é o que há mais de importante num jogo de futebol, quem se defende mal joga mal.

Não existe sistema perfeito, existe sistema bem aplicado. No final a equipa que melhor entender e aplicar um sistema, seja qual for e fundamentalmente, mais conseguir encontrar respostas para os problemas propostos pelos seus rivais ( e para os seus próprios problemas ) pode jogar melhor. Jogar melhor sim, ganhar é consequência.
 


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