A Concentração no Futebol

O técnico do São Paulo F.C., Muricy Ramalho, recentemente em entrevista alegou o desejo de abolir as concentrações durante longos períodos antes dos jogos de sua equipa. Segundo o treinador, ele não sente a necessidade de que isso possa beneficiar os atletas e fazer a diferença em campo. Esse é um tema que gera muita polêmica,  principalmente, no futebol.

A concentração durante as competições  é um traço cultural do nosso desporto, reforçado pela nossa sociedade, que em muitos aspectos é ainda muito conservadora. É um assunto cercado de ‘achismos’, por exemplo, os atletas poderiam extrapolar e se comportar de maneira irresponsável quando estão de folga, como se ficar enclausurados e vigiados num hotel, centro de treino ou algo parecido, nenhuma atitude fora da ‘normalidade’ ocorreria. É comum o tipo de pensamento:  “se não houver concentração os atletas podem-se perder nas noitadas, beber e comer em demasia, perder totalmente o controlo, dormir pouco e não descansar o suficiente, a disciplina tem de ser rígida.” Só os mais ingénuos acreditam que a concentração pode inibir esses tipos de condutas, há inúmeros relatos de ex atletas  e membros de comissões técnicas de diversas modalidades sobre festas, jogatina, orgias e bebedeiras nessas ocasiões, algumas até as vésperas de grandes decisões, diante dos olhos e da complacência de dirigentes e assessores. Quem procura acha e quem cala consente, já diz os ditados. Vamos deixar de sermos hipócritas e paternalistas . Afinal, estamos diante de  crianças ou adultos? Onde está o profissionalismo? Os atletas de alto rendimento sabem que o seu corpo é o seu meio de trabalho e que é fundamental zelar pelo mesmo, cada atleta deveria ser responsável pelo próprio auto-cuidado e não ser tutelado por terceiros.  Onde fica autonomia?  Pouco importa como essas pessoas se comportam em suas vidas privadas, desde que isso não atrapalhe seu rendimento desportivo ou influencie negativamente na performance de sua equipe.

No Brasil, frequentemente quando uma agremiação desportiva não está obtendo os resultados esperados ou tem problemas de convivência, alguns treinadores e dirigentes desportivos optam por longos períodos de concentração para melhorar o ‘ambiente’ ou como uma espécie de ‘punição’. Certamente isso é um equivoco, forçar a convivência de pessoas que não estão sabendo lidar com as diferenças, pode gerar mais stress, desmotivação desnecessárias e até desagregar mais o grupo e as relações entre seus membros.
A concentração por longos períodos não existe em muitas equipes da NBA,  da NFL, em grandes clubes do futebol europeu como, o Barcelona F.C. e o Bayern de Munique, e isso não é nenhuma novidade, nos anos 70, o Ajax aboliu a concentração, no inicio dos anos 80 por pouco tempo, o Corinthians também. As selecções da Holanda e da Alemanha durante a Copa do Mundo no Brasil, ano passado, nos mostraram que esse padrão de comportamento pode ser alterado e deveria ser disseminado. Alguns jornalistas e torcedores brasileiros ficaram estarrecidos ao cruzarem na praia, nos restaurantes, em bares e em outros locais de convívio público horas antes de uma partida com alguns atletas. Muitos jogadores desfrutavam suas horas livres e de lazer na companhia de familiares e outros colegas. O resultado nos campos nós sabemos como foi, principalmente, diante da selecção do nosso país. Os jogadores estavam com nível de activação óptimo, equilibrados emocionalmente, no ápice de suas capacidades físicas, técnicas, táticas e psicológicas. Certamente havia toda uma grande estrutura complexa que respaldou essa condição, mas alguns aspectos negligenciados por aqui não são meros “detalhes” em equipes vencedoras.

A concentração pode ter um efeito contrário do que se divulga no senso comum. Ao invés de descansar, focar e preparar-se para a competição, por exemplo,  muito tempo concentrado pode desencadear mais ansiedade, mais oscilações de humor, mais tensão e mais pressão por desempenho aos atletas, além da privação de outras necessidades básicas necessárias para qualquer ser humano, como: o convívio com a família, amigos e períodos de ócio fora do ambiente laboral. Portanto, abolir períodos longos em concentrações é um bem para o desporto e principalmente para a saúde mental dos atletas.