O início da nova época: talento ou intuição?

Contratar um jogador implica a ideia prévia que se tem dele. Blind, Fàbregas e Anderson em Manchester. Nenhuma equipa sobrevive uma época a lutar por títulos sem a consistência defensiva

Regressaram os grandes campeonatos. O futebol (e, no fundo, a vida das pessoas) pode, por fim, voltar ao seu ritmo emocional normal. A entrada de Falcao no futebol inglês, no Manchester de Van Gaal, será o que criou maior impacto, mas nem será aquele que vai mudar verdadeiramente a equipa porque a questão para o renascimento do poder de Old Trafford está mais atrás no onze. Como Mourinho viu no Chelsea, e trabalha agora Fàbregas em diferentes linhas. Depois de surgir junto a Matic no primeiro jogo, apareceu agora mais adiantado no triângulo do meio-campo, quase como médio-centro rompedor, ficando a dupla Ramires-Matic atrás. É nestas zonas que batem os corações das equipas mesmo em jogos de 3-6 (contra o Everton), em que ambas perdiam o equilíbrio defensivo. Por isso, a “magna carta” de Mourinho lhe meteu essa nuvem cinzenta em cima. Um jogo ligado à corrente elétrica 90 minutos, sem controlo tático-emocional. Em Manchester, causa-me mais curiosidade ver como vai jogar Blind do que Falcao. Porque se, quanto ao pontade lança, a questão é juntá-lo com Van Persie, metendo Rooney mais atrás ou a cair numa faixa, a questão-Blind é mais complexa. Pode jogar a lateral-esquerdo (em defesa de “4” ou a subir no 3x5x2), central na defesa a “3” ou pivô.

Face às necessidades da equipa, é este o melhor princípio que vejo para ele. A dúvida é se ele cresce com o clube ou este lhe pesa de mais em cima. Tem, no entanto, escola, e, não sendo um catedrático com a bola, é um bom jogador para... pensar o jogo. Nenhuma contratação é, porém, segura. Em nenhum local do mundo. Penso nisso quando vejo Anderson a jogar os últimos 20 minutos contra o Burnley. Quando foi contratado em 2007, dizia-se que seria um novo Ronaldinho Gaúcho, tal o estilo com que jogava (brilhava) no FC Porto. Para Fergusson, porém, não foi assim e o treinador do United viu nele outro tipo de jogador. Passou de avançado vagabundo criativo para médio-centro defensivo operário. E, o que também impressiona, o jogador nunca reclamou disso e jogou sempre bem, mas acabou sendo apenas “mais um”. Foi jogando menos, emprestado à Fiorentina, culturalmente deslocado, regressou agora e ninguém se interessou verdadeiramente por ele. Toda esta história/percurso de Anderson é, confesso, dos que me inquietam mais na análise das carreiras do jogadores do presente. Como foi possível (para além das lesões) esse desvio na “estrada do craque”?

Há jogadores com grande qualidade que depois só jogam com o... talento e a intuição. 
Pode isso travar a evolução da sua carreira para níveis mais altos?

Mano Menezes, que o projectou no Grémio com 17 anos, fala disso dizendo que “ele apenas trabalhava com o seu talento e intuição. Mas, às vezes, falta-lhe alguma coisa nas preocupações táticas”. Continuo a achar estranho, porque mesmo como médio operário ele nunca virou a cara ao jogo. Tem, agora, 26 anos. Chamam-lhe a idade ideal, maturidade e condição física, de um jogador. Precisa agora de roubar uma bola, um drible com túnel melhor, uma arrancada e uma jogada que termine em golo. Para mostrar quem é, jogo e personalidade, e que há muito que é maior de idade.

Xabi Alonso como abrir “clareiras” no relvado
At. Madrid entra Cerci com a “faca nos dentes”
Nos movimentos do mercado, as mudanças no Real Madrid são as que intrigam mais. Depois de sair Di María, deixou sair o médio que fazia a equipa pensar da melhor maneira: Xabi Alonso. Foi para a corte de Guardiola, o Bayern, que viu nele o ideal para, como pivô único à frente da defesa, começar o jogo da equipa desde trás, numa espécie de 4x2x3x1 com Rode por perto, mas que mal Xabi pegava na bola, deixava-lhe toda a amplitude periférica para jogar, com “J” grande. Então, era quase um 4x1x4x1 com Xabi Alonso no leme tático. Visão, toque, passe longo ou curto, de primeira ou olhando primeiro. Sem entrosamento, com poucos treinos, mas muito futebol na cabeça. E esse é que é o segredo. Xabi Alonso nunca foi um jogador rápido. Agora, com 32 anos, até se poderia notar mais. Não nota. Porque tem velocidade... de jogo na mente. Parte do sentido posicional, das opções que toma quando a bola ainda vem a caminho e, a partir daí, tudo que faz é abrir clareiras no jogo coletivo da equipa. O Bayern, de Guardiola, abre um novo horizonte com Xabi Alonso. Veremos, agora, a sua rotatividade posicional nas decisões da Champions. O modelo, esse, é intocável. O que Guardiola questionou apenas foi que se se esgotar na mera posse, sem objetividade, de nada serve. O seu modelo bávaro existe com esses contornos. Sem eles, como em Barcelona, seria o melhor futebol do mundo mas... sem balizas. Impossível de admitir. Xabi Alonso é uma espécie de Pirlo espanhol na Alemanha. O perigo é, sempre, que a sua influência acabe por submergir a equipa. Mais do que a fazer mover-se, ela esperar por ele O Atlético de Madrid entrou nesta época com o mesmo carácter e estilo da anterior. Simeone atingiu uma aura que, agora, tem ele próprio de saber controlar. No banco desde logo. E em tudo que o rodeia. O onze perdeu Diego Costa, mas não perdeu a presença ofensiva. Mandzukic é, porém, um ponta de lança que pode mudar um pouco a forma de atacar ou procurar, e ter a bola na frente, pois se Diego Costa era um velocista lutador que dava profundidade por si só, Mandzukic é uma presença entre os centrais mais fixa. Será, talvez, um Atlético a tentar mais cruzamentos, com Griezmann a poder ter papel de protagonista. O jogador que, no entanto, me cativou mais entre as contratações foi outro: Cerci, um italiano de raça, velocidade, técnica e remate. Ou seja, o seu futebol tem a cara deste Atlético de Simeone. Tanto pode jogar na faixa como mais por dentro. Vem do Torino, despertou tarde para o grande Calcio, está com 27 anos, mas já ganhou espaço na seleção. Terá, na fórmula-Simeone, de melhorar no esforço de transição defensiva, recuar a defender como fazem os extremos colchoneros até formarem um casulo à frente da sua área, de tal maneira que o adversário nem vê a baliza. Depois, recuperada a bola, Cerci pode ser a seta aguerrida do contraataque. O tal protótipo de jogador que joga com a “faca nos dentes”. Será difícil a equipa manter os níveis táticos da época passada, mas neste início, apesar do lado excessivamente tauromáquico de Simeone no banco, surge sem tirar os pés do chão (as chuteiras da relva). A tática continua demasiado real, o segredo do seu sucesso, um dos donos do melhor futebol da atualidade. Com Cerci a meter mais andamento no jogo.
Fonte: O Jogo